Entrevista a Carlos Amaral

Por lapso a versão da entrevista ao Carlos Amaral que foi publicada no primeiro volume de Apocryphus não era a versão final da mesma.
Por esse motivo apresentamos as nossas mais sinceras desculpas e publicamos aqui a versão final da entrevista ao Carlos Amaral.

ENTREVISTA AO ARTISTA CARLOS AMARAL
APOCRYPHUS – AGOSTO 2016

Carlos Amaral nasceu em Coimbra, em 11 de Julho de 1994, o mesmo ano de Shawshank Redemption, o mesmo mês que Daniel Barry, que desenhou Flash Gordon e, pouco antes da sua morte, Indiana Jones. Com 22 anos, Carlos, um autodidata puro, se é que tal conceito existe, trilha de forma convicta o caminho árduo da profissionalização da sua arte, com um grande talento e coragem do seu lado.

Conversámos um pouco com o artista responsável pelo brilhante trabalho presente na capa desta primeira edição de APOCRYPHUS, para saber um pouco mais acerca da sua arte, vida, projectos e motivações.

APOCRYPHUS – Carlos, primeiro que tudo, bem-vindo ao projeto e obrigado por estares “a bordo”. Tendo em conta a qualidade do teu trabalho, há uma pergunta inicial, talvez cliché mas inevitável, que temos de fazer.

Como começaste? Começaste a desenhar logo desde cedo? Sempre soubeste que era isto que queiras fazer, ou foi uma consciência mais tardia?

CARLOS AMARAL – Desde que me conheço que tenho gosto pelo desenho, tenho até lembranças de quando tinha por volta de 3 anos de idade preferir muitas vezes um pedaço de papel e um lápis ou caneta a brincar com qualquer outra coisa. Com o avançar da idade, o prazer de desenhar foi desvanecendo à medida que um sentimento de culpa se instalava. Sentimento este derivado da demasiada atenção que prestei ao preconceito e aos “avisos” relativamente a esta área de actividade. E com isto passei a fazê-lo cada vez menos, apesar de muitas vezes me refugiar nos desenhos para matar tempo, principalmente durante as aulas ou matérias que menos me interessavam, obtendo muitas vezes elogios e palavras encorajadoras por parte dos meus colegas e por vezes até dos próprios professores. Contudo é normal um ter medo ou ficar receoso quando a arte é vista como um risco, uma coisa a ter cuidado porque não suporta uma vida. Confesso que concordei com isto, mais por medo, mas ainda durante uns bons anos, daí a arte surgir apenas como um projecto ou modo de vida bem mais tarde.

APOCRYPHUS – Não te incitavam a desenhar ou a ser artista quando crescesses, era isso?

CARLOS AMARAL – Sim, mais ou menos isso. O desenho, era (e é) visto como uma coisa gira, mas que jamais daria rendimento. Esse preconceito acompanhou-me e chegou mesmo a afastar-me da arte numa fase inicial.

APOCRYPHUS – Mas, felizmente, não te convenceram.

CARLOS AMARAL – De facto não, e ainda bem, mas não posso dizer que seja fácil. Especialmente quando não há um curso ou uma formação tradicional associada, mesmo em artes, as pessoas estranham. E ao estranharem, avisam, dentro daquele preconceito de que “não vai dar em nada”. É normal que uma pessoa, se for nova ainda por cima, se assuste. Talvez por isso eu tenha levado algum tempo até perceber que é isto que realmente gosto e sei fazer, e que me deveria profissionalizar nesta área.

APOCRYPHUS – És portanto, um autodidacta “puro”?

CARLOS AMARAL – Pode dizer-se que sim. Leio muitas coisas, pesquiso outras tantas, desde livros de autores a tutoriais na net, passando pelo material bibliográfico e técnico sobre a arte. No entanto nunca tive um “professor” que me dissesse como se traça esta ou aquela linha ou como se obtém aqueloutro efeito de luz. Há sempre com quem aprender, seja observando a natureza, os mestres, os ídolos que acabamos por ter, mas nunca estive numa sala de aula ou de formação a aprender a arte e o ofício. Assim como a decisão de me profissionalizar, foi um caminho que fiz sozinho.

APOCRYPHUS – Assim sendo a universidade não era um plano?

CARLOS AMARAL – Inicialmente era, mas após ter obtido mais experiência de vida e após ter feito uma pesquisa acerca dos estabelecimentos que poderia vir a frequentar, assim como dos trabalhos dos recém licenciados/mestres destes, mudei de ideias. Os estabelecimentos de ensino ou eram maus a ensinar ou simplesmente não conseguiria suportar a despesa.

Não quero de maneira alguma tirar o incentivo às pessoas que queiram ir para a universidade, aliás, por vezes acho que valeria a pena, nem que seja pelo “networking”, pelos amigos e contactos que se fazem, e acima de tudo pela partilha de experiências, porque como devem imaginar, este é um trabalho solitário. Muito bom e gratificante, mas obriga a longas horas de isolamento, seja para aprender, seja para de facto executar o trabalho em mãos de forma competente.

APOCRYPHUS – És perfeccionista então?

CARLOS AMARAL – Muito. Posso dizer que tenho os olhos mais treinados que a mão. Deixei muitos trabalhos por acabar e deitei muitos outros fora porque achava que não estavam em condições, pelo menos para o meu nível de exigência, e porque se queria entrar num mundo como o da arte conceptual e ilustração, tão pleno de tantos talentos, as coisas teriam de ser feitas com um nível de qualidade o melhor possível.

Actualmente, apesar de ainda lutar muito contra o meu perfeccionismo, acredito que o melhor é criar e concluir o maior número de trabalhos possível ao invés de poucos tentando alcançar a inexistente perfeição. No final de contas, tal “perfeição” é somente alcançada através da prática.

APOCRYPHUS – Pelo que dizes decidiste profissionalizar-te aos dezanove anos, ou seja, há cerca de três. Como foi esse percurso?

CARLOS AMARAL – Bem, esse percurso está como que dividido em duas partes.

Os dois primeiros anos foram mais anos de aprendizagem, de consolidar conhecimentos, muita mas muita prática, muita coisa deitada ao lixo, e o começo da procura da visibilidade. Nisto as redes sociais como o Facebook e Instagram e outras mais direcionadas para a minha área, dão mesmo alguma ajuda. Além disso encontram-se as pessoas que trabalham na nossa área, aquelas com quem gostaríamos de colaborar e, o mais importante, quem nos vê e fica interessado no nosso trabalho.

O último ano acabou por ser o reflexo desse investimento, nos quais tive os meus primeiros trabalhos e onde acabei por obter uma maior visibilidade.

APOCRYPHUS – Que trabalhos foram esses?

CARLOS AMARAL – O primeiro de todos foi pintar ilustrações para um jogo de cartas Indie de ficção científica.

Também costumo fazer retratos, tanto digitalmente como tradicionalmente.

Já tive alguns outros trabalhos em arte conceptual e ilustração, incluindo este projecto. Já tendo até sido abordado e convidado para outros projectos após a publicação online da capa para a antologia APOCRYPHUS, o que torna tudo ainda melhor.

O que noto é que a visibilidade faz de facto muita diferença e pode ser vital ser visto pelas pessoas certas no momento certo, especialmente num mundo tão grande e diversificado como o da arte. O mercado é gigantesco e há muitos artistas habilidosos. E é por isso mesmo que é muito interessante, nos dias de hoje com maior facilidade, ser possível ver e ser visto por tanta gente e ter tanto contacto tom tantos projectos e formas de pintar e desenhar. Acima de tudo, é óptimo fazer parte desse mundo.

APOCRYPHUS – Agora que falaste no assunto, aproveito para te perguntar como entraste em contacto com o projecto.

CARLOS AMARAL – Bem eu conheci o Miguel pessoalmente em Tróia, no evento “Trojan Horse was a Unicorn” do ano passado [2015], apesar de já o “conhecer de vista” online, assim como o João, através do grupo “Desenhos Inks e rabiscos…” no  Facebook. Grupo este também responsável pela descoberta do projecto.

APOCRYPHUS – E o que te convenceu a colaborar no projecto?

CARLOS AMARAL – Bem, além de toda a ideia e estrutura do projecto, o facto de poder fazer a capa, ou seja, uma pintura, uma imagem mesmo ao meu gosto e como prefiro trabalhar. Além disso, o tema era fantasia, e isso também me interessou muito. Para já é o meu tema favorito, o que é logo uma vantagem, outra sendo a enorme liberdade criativa que me foi concedida pelo Miguel e pelo João. É muito satisfatório poder dar largas à imaginação sem limites.

APOCRYPHUS – Mas para além da arte conceptual ou o desenho e pintura de capas, digamos assim, isoladas, também, te interessa a ilustração de banda desenhada?

CARLOS AMARAL – Sim, definitivamente. É, além do que já faço, um dos meus grandes interesses, poder criar um portefólio que me permita também ilustrar banda desenhada tanto como “conventional penciller” como pintando ambas a arte sequencial e/ou capa.

APOCRYPHUS – E que mais trabalhos tens agora “em mãos”?

CARLOS AMARAL – Além da colaboração no APOCRYPHUS, estou envolvido a medio-longo prazo no desenvolvimento de um videojogo Indie chamado “Dear Orc”, produzindo arte conceptual, ilustrações e animações. Também tenho em mãos outros projectos mais transitórios como capas para publicações, concepts e ilustrações para várias companhias e designs para tatuagens.

APOCRYPHUS – E trabalho para as grandes editoras? Marvel, DC, Image e outras?

CARLOS AMARAL – Isso é claramente um projecto. Ainda tenho de compor um portefólio consistente para poder abordar as grandes editoras de Comics e poder tentar uma colaboração com eles. Julgo que é aquilo a que também qualquer artista de ilustração almeja, ou seja, ter o seu trabalho publicado pelas mesmas editoras que os inspiraram enquanto crianças e que o continuam a fazer, possivelmente até inspirando novas gerações através da visibilidade adquirida, dando continuidade ao ciclo. Deve ser uma sensação única de satisfação, como a realização de um sonho.

APOCRYPHUS – Praticas desporto? Tens algum hobby para o tempo em que não estás a trabalhar ou para recuperar energias?

CARLOS AMARAL – Sim, sou skater. Gosto muito e além de me ajudar a relaxar e a manter o foco, permite-me, mantendo a criatividade, descansar a mente e divertir-me para além de ser saudável, a não ser quando caio. No entanto considero que seja uma valiosa lição de vida, na qual é importante cair inúmeras vezes e ainda mais importante nos levantarmos todas essas vezes, só assim é possível alcançar os nossos objectivos.


  APOCRYPHUS
– E como é a vida pessoal de um artista profissional?

CARLOS AMARAL – É complicada, primeiramente porque ter trabalho nunca é uma constante, e a mim principalmente que ainda sou “iniciante”. Também em parte, pela questão da solidão, que falei antes, e a persistente ideia e preconceito face ao que faço. Trabalho em casa e isso é sempre visto, ainda hoje, mais como uma ocupação do que como um trabalho sério e duro. Mas, apesar de tudo, é das melhores sensações podermos fazer o que realmente gostamos.

APOCRYPHUS – Imagino que tenhas orgulho em identificar-te como “artista freelance”.

CARLOS AMARAL – Sim, confesso que sim. Um grande orgulho, talvez porque saiba o que realmente quero e lentamente estou a conseguir.

APOCRYPHUS – E entre toda essa dificuldade que me falas, e que sabemos que é real, quem são os teus maiores fãs, quem te apoia mais?

CARLOS AMARAL – A minha namorada, sem dúvida. É o pilar, aquela pessoa que não tem um segundo de dúvida acerca de mim ou do meu trabalho e futuro sucesso. É quem me ajudou na decisão de me profissionalizar e no fundo quem me permitiu fazer disto, da arte, a minha vida.

APOCRYPHUS – E, como a maioria dos artistas, terás as tuas referências, ídolos, principais influências. Quem são eles? Acredito que, pela tua capa, pelo menos o grande Frank Frazzetta?

CARLOS AMARAL – Sim, é verdade, Frank Frazzetta é uma grande referência, o homem que mudou o Conan e redefiniu o género Sword and Sorcery. Tornou-se uma fonte de inspiração e uma grande influência para as próximas gerações de artistas que o sucederam.
Outra enorme influência e sem dúvida o meu artista favorito, Adrian Smith, que tenho a felicidade de ter conhecido pessoalmente e que, entre muitas outras coisas, é mais conhecido pelo seu trabalho feito para o “franchise” WARHAMMER na altura em que, na minha opinião, a arte da Games Workshop estava no seu pináculo de qualidade.
Isto leva-me a falar também de outro grande ídolo que tenho, Paul Bonner, que entre inúmeros outros trabalhos, foi outro dos responsáveis pelo auge de qualidade da Games Workshop com as suas fabulosas ilustrações.


APOCRYPHUS
– E em termos de ilustração para BD de storytellers originais?

CARLOS AMARAL – Não fujo a alguns dos grandes, como Frank Miller, Jack Kirby, John Buscema, Alex Ross, Mike Mignola, Simon Bisley, ou Jim Lee. Mas gosto também de outros autores menos conhecidos, porque além de gostar da arte e da BD, ao ver outros autores estou também a colher ideias e aprender técnicas, estilos e formas de desenhar.

APOCRYPHUS – Assim como epílogo da nossa conversa, que conselho podes ou queres dar a quem goste deste tipo de arte e que conclusões tiras da tua opção de seres profissional na actividade que mais gostas de ter?

CARLOS AMARAL – Primeiro que tudo gostava de dizer que, como já tinha mencionado, não é um caminho fácil. Há problemas, dificuldades, uma escadaria muito longa (diria até sem fim). Mas apesar de ainda só ter subido um ou dois degraus, posso afirmar que a escadaria é possível de se subir, sendo possível seguir o que realmente se gosta de fazer. Eu, por exemplo, não estou minimamente arrependido, por mais difícil que se torne só tenho de continuar a subir e não olhar para trás. Criar coisas é o trabalho mais divertido que há e bastante recompensador, sinceramente não me consigo imaginar a fazer outra coisa.

APOCRYPHUS – Obrigado por esta conversa, Carlos. E que esta seja apenas a primeira de muitas conversas neste e noutros livros e edições, e bem-vindo ao APOCRYPHUS.

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